22 de agosto de 2014

Metamorphosis.


The Bloody Chamber and Other Stories


(...)

 
He dragged himself closer and closer to me, until I felt the harsh velvet of his head against my hand, then a tongue, abrasive as sandpaper.

'He will lick the skin off me!'

And each stroke of his tongue ripped off skin after successive skin, all the skins of a life in the world, and left behind a nascent patina of shining hairs. My earrings turned back to water and trickled down my shoulders; I shrugged the drops off my beautiful fur.





- Angela Carter

9 de julho de 2014

Own.


Os teus olhos estavam pequenos. Estavas com olhos de Japonesa e gosto do Kimono que hoje soubeste roubar-me. Escrevo-te todos os dias.  Mesmo quando não o sabes ou não lês. Escrevo-te em mim. Escrevo-te para mim. Às vezes ébrio. Às vezes sóbrio. Tudo em ti. Tudo em mim por ti. Intoxicado de visões, de lembrar as horas e os minutos. Porque lembro. Porque lembro-te. Por vezes não te sei de outra forma se não te lembrar. E repito-me: Não te lembres muito mais!  Repito-me até o lembrar ser absurdo. Repito-me até o conceito perder a velocidade, entrelaçar-se com a língua, ficar pastoso, demorado. Repito-me até as palavras se transformarem em algo que não é palavra. Sentimento. Transformo-te em sentimentos e os sentimentos em palavras e as palavras voltam a sentimentos. As voltas que só tu me fazes dar. Voltas maiores que o mundo. Maiores que os aviões ou os barcos. Maiores que esta cama. Esta cama que eu quero adormecer e acordar daqui a dois dias. Não sentir o tempo a passar. Esse é um dos melhores gumes, sentir o tempo a passar. Querer algo, de tal forma, para certo dia, que não queremos sentir a preguiça do tempo. Essa dor cisuda e aguda. Dor que nem o relógio ajuda, muito pelo contrário, o relógio é o maior traidor que conheço. Ausentar-me desse sentir. E sentir nada. Nada. Tudo não é melhor que nada. Algo não é melhor que nada. Nada é nada. É branco. É tela. É anestesia. Querer o nada para não sentir-me a morrer e depois renascer. Acordar directamente na tua pele. Abrir os olhos. O meu cabelo todo no ar. A minha cara encostada nos teus ombros. Ter-te. Ter-te pronta para desenhar-te. Por vezes pergunto-me: Saberás o que é desenhar-te?, Saberás o que é a vontade de desenhar-te? Ter as tuas costas todas para mim e usar os meus dedos e saliva. Desenhar-te. Sim, é uma vontade verde, egoista. Não querer saber de Ti. Querer apenas desenhar-te na tua própria pele. Dar-te a sentir quem me és. Podes até achar que não o és. Mas és. Eu sei que és. Não sejas teimosa, sabes que eu tenho quase sempre razão. Podes até achar que és uma árvore ou um navio afundado. Não quero saber. Para mim és. Para mim és-me. E é seres-me que me importa ou interessa. Se fores algo, és mar. Porquê? Porque afogo-me cada vez mais em ti. Os meus pulmões cheios de ti. A minha boca em fios de ti. Tu, em todas as partes de mim. Tudo lentamente. Tu, como mar, a absorveres-me até começar a pairar nas tuas correntes. Sem força. Sem resistência. Sem nada. Sem relógio. Tomares-me em tuas profundidades. Tomares-me em tuas algas. Tomares-me em teu sal e deixares-me em rastos esbranquiçados. Quem me és é superior a quem és. Vejo uma parte de ti que desconheces. Que te é imigrante. Vejo-te de Ver. Ver para além. Além da carne. Dos cabelos. Dos olhos. Dos braços. Das pernas. Vejo-te. Guardas todas as cores. Guardas todos os sons. Guardas todas as letras. Desenhar-te é guardar em ti todas as minhas constelações. Não entendes? Não faz mal. Não precisas de entender. Nem eu entendo. Mas também não preciso. Pode ser uma curva, uma recta, uma passagem de nível, a chegada é sempre ao mesmo local. A minha cama. Tu na minha cama. As tuas costas prontas para desenhar-te. Tudo acaba como começa. Em nós.


25 de maio de 2014

Personal Note, # 7.


Pedro Paixão é Pedro Paixão. Poderia tentar o descrever. Não o farei. Fico-me pelo conceito do que ele é: vida. Voltou a falar para nós. Voltou com dois livros: "o céu na boca" e "espécie de amor".



Estão em pré-venda no site da Primebooks e nas livrarias a partir do dia 11 de Junho.

Pelo que sei, não vai existir muita publicidade. Ajudem a espalhar este "panfleto".
 

7 de março de 2014

Pen.


XXV


my mind is
a big hunk of irrevocable nothing which touch and taste and smell
and hearing and sight keep hitting and chipping with sharp fatal
tools
in an agony of sensual chisels i perform squirms of chrome and execute
strides of cobalt
nevertheless i
feel that i cleverly am being altered that i slightly am becoming
something a little different,in fact
myself
Hereupon helpless i utter lilac shreiks of scarlet bellowings.






- e. e. cummings

17 de fevereiro de 2014

Today.


O teu Nome guarda todas as Letras. Não o sabes, nunca o confessei. Prometi-me não o fazer e as únicas promessas que quebro são as que faço a mim mesmo. Mas o teu Nome guarda todas as letras. Chamar-te é chamar todas as coisas. A cidade. A noite. A casa. As paredes. O Mundo. 

Repara: guardo o corpo despido em cima da cama. Desmantelado. Vende-o por partes. Para peças. Bate na porta das Lojas, das Oficinas, das Sucatas. Veste o teu fato de domingo, arranja as unhas, despe as nódoas, soma-me a um catálogo, leva-me em uma mala e apregoa-me. Vende-me, porque ambos sabemos que esta mecânica nunca foi funcional. Não quando ausente engasgas, em surdina, tudo aquilo que sei como batimento cardíaco. Mas guarda as minhas mãos, sei que as gostas. Esta minha Cal. Guarda-as, embrulhadas em papel químico, para quando necessitares de limar as unhas pela minha epiderme. 

No meio disto tudo aprendi a parar o tempo. Parei-o em ti. Parei-o no início de ti. Onde és feita de pedra e rasgas o meu sono e levas-me para a insónia. Onde sei-me sem bússola. Onde o Norte e o Sul se confundem na malicia de te respirar. Onde o sentimento é em primeira instância jovem e sereno para depois metamorfosear-se em abismo avermelhado sem cordas ou apoios. Onde és. Simplesmente és. 

Pinto, em amarelo pálido, o teu Nome na face de todas as noites. O Mundo precisa de saber que sem as tuas letras não existem janelas onde ele é paisagem. E por fim, o receio é apenas uma desculpa vazia, repetida em sussurro, para esquecer que o coração dispara como uma bala, no não gostar fininho de ter uma alma revólver, porque não é pólvora que queima, mas sim, a possibilidade de Vida. 

(A)guardo-te 



- Ficas comigo para Sempre? 


Sempre? Não.  Sempre é pouco. Sempre sabe a muito pouco. Sempre tem fim. E eu quero mais. Muito mais que Sempre.